É NECESSÁRIO MANTER "VIVOS" OS MORTOS
 
O USO E ABUSO DO SER HUMANO
 
     
 

    Dia 1 de maio de 1994. Maio de 2019, portanto, 25 anos nos separam da morte de Ayrton Senna. Naquele dia fatídico, disputava-se o Grande Prêmio de San Marino em Ímola, na Itália. Ayrton Senna morreu, mas é necessário que o morto não morra, continue "vivo". É fundamental mantê-lo vivo a qualquer custo. Seria absurdo perder os extraordinários dividendos do espólio deixado por ele. Quantos milhões de dólares se perderiam. Que raça desgraçada, a humana! Depois de exaurirem toda a seiva de um homem em vida, não satisfeitos, partem para sugar o que ainda resta do morto.
   Toda a máquina se agita. Um mercado escancarado se abre à frente dos ávidos diretores de marketing de inúmeras empresas. Seria imperdoável erro mercadológico não aproveitar tão oportuno momento. Tudo aquilo que for feito para manter “vivo” o morto deverá dar extraordinários resultados. É hora de oferecer pôsteres, bandeirinhas, bonés, camisetas, capacetes, roupas de piloto, jornais, revistas, sabonetes, macarrão e tudo mais; claro que tudo com fotografias do Airton Senna. É hora de “homenagear” o nosso tricampeão de Fórmula Um. Quanta bondade, quanta sensibilidade!
    Como se aproveitam da ingenuidade da gente humilde do nosso povo! Como são comercializados os mais puros sentimentos da nossa gente. Como vorazes urubus, esses homens se atiram sobre os nossos mortos famosos, para, “em sua memória”, auferirem lucros fabulosos. Bem vindas as tragédias, se o resultado for um aumento das vendas e um volumoso rio de dinheiro para engordar suas contas bancárias.
    Claro que um dia o assunto se esgotará. O tempo, que tudo apaga, apagará também este triste evento. Mas, sosseguem! Outras tragédias virão! A coisa não termina aqui. O espetáculo não pode parar. A humanidade se alimenta de heróis mortos. Quem disse que acabou o pão e circo? Afinal, o que mudou do antigo circo romano até os dias atuais? Talvez, apenas a tecnologia de matar. Acabaram-se os vendilhões do templo? Absolutamente! Estão todos aí. Onde está então a diferença? Os antigos não conheciam os chaveirinhos.
    Adeus Airton Senna! Elvis Presley! Marilyn Monroe! James Dean! Adeus vítimas famosas do mundo inteiro e, porque não, adeus também às vítimas anônimas, que morrem aos milhares todos os dias em todos os cantos deste desditoso planeta. Adeus a todos aqueles que, de uma ou outra maneira, mantiveram em movimento este imenso manicômio. No final das contas, a verdade é uma só, o espertáculo não pode parar. E os indivíduos que transformam eventos dramáticos e dolorosos em mercadoria são os primeiros a manter o macabro carrossel girando ininterruptamente.

 
Ayrton Senna, extraordinário
campeão de Fórmula 1 cuja
carreira terminou de forma
trágica no dia 1 de maio
de 1994 no Grande Prêmio de
San Marino em Ímola - Itália.
Elvis Preslay, inigualável roqueiro
americano, cuja carreira
terminou de forma deplorável
em face do abuso comercial
a que os manipuladores expõe
esses ídolos das massas.

Marilin Monroe - uma das mais
populares atrizes americanas
de meados do século passado.
Em 5 de agosto de 1962 faleceu.
Sua morte esteve cercada
de mistério e não foi bem
explicada até os dias atuais.
 
 
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