O INFERNO EM CONCORDATA
 
 
 

  Numa noite destas, sonhei que visitava o inferno. Ambiente   imerso em brumas, subiam vapores de enxofre do solo musguento. Um luminoso sobre o portal de entrada: “Holiday on the fire”. Pelo visto, nem o inferno estava livre da americanização. Em meu sonho, o diabo chorava. E como chorava...! Suas  lágrimas quentes corriam por suas  magras faces, deslizavam pelo peito peludo e caíam sobre uma fogueira a seus pés. Ao seu redor, duas serpentes aladas sopravam labaredas de fogo. 
Ao me aproximar do trono do temido rei do mal, sofri brutal decepção. Deparei-me com um sujeito alquebrado, envelhecido, magro e anguloso como uma raiz retorcida. Depressivo, cheio de cacoetes, ajeitava seguidamente a barbicha rala e grisalha. Ao ver-me, aproveitou a oportunidade e estendeu-se em lamentações:
   – Veja, senhor! Com a crise reinante, a situação da maior parte das pessoas é precária. O pior, no meu caso, é que ao serem instituídos o céu e o inferno, não foi criado um sistema de previdência social como o de vocês. Portanto, não poderei me aposentar nem por tempo de serviço nem por idade. Outra coisa: do lado de cá fui posto eu; do lado do céu, o Pedro; o purgatório ficou ao deus-dará. Conclusão, sempre sobra pra nós dois. Vez por outra, temos de dar uma voltinha por lá e encaminhar os indecisos. Não me incomodo em ser um diabo pobre, minha queixa é terem me reduzido a um pobre diabo. Não é justo. Onde já se viu, um diabo correr atrás do prejuízo. Ao chegar aqui, você viu a placa de entrada. Tenho que fazer promoções, contratar músicos e bailarinas para manter a clientela. Já dizem as más línguas que isto está parecendo a ilha da fantasia. Antigamente eu era considerado o mais perverso dos seres, hoje não consigo assustar nem as criancinhas. Algumas chegam a me confundir com o Chapolim Colorado. É necessário remanejar tudo diante de tão graves problemas. O nosso departamento de marketing já iniciou o estudo das  maldades preferidas e das sacanagens atuais. Em breve terá início o nosso serviço de telemarketing, o teledemo. Teremos também um site na internet: o www.infernet.com.
    Calou-se um momento, enxugou os olhos e a barbicha. Em seguida aqueceu a ponta do rabo num dos fogareiros existente ao lado do trono. Fora atacado por forte reumatismo na ponta daquele seu órgão terminal – explicou.
– Mas... tudo bem, senhor. Afinal, temos que nos adaptar ao mundo moderno. O Pedro, aí do lado, também está passando por maus momentos, a clientela definhando. Além de não contar com uma boa equipe, está totalmente gagá. Vez por outra, vem até os limites da minha propriedade e faz xixi nos meus fogareiros. Não dá a mínima para as minhas reclamações, diz que o calor lhe

    
 
faz bem. Juntos, tomamos chá uma vez por semana e relembramos os velhos tempos. Bem, voltando ao assunto, o meu problema são os terráqueos. Difícil acompanhar suas perversidades. Não sei onde adquiriram tanta tecnologia. Tudo o que inventamos o vosso pessoal já fez. Fecho esta joça se não conseguir alcançá-los. Não fosse essa vergonha de diabo velho que ainda me resta, faria um curso de aperfeiçoamento com sua gente. Veja! Tenho procurado ser um diabo à altura, tão canalha e perverso quanto esperam que eu seja. Em momento algum me converti à bondade, à pieguice de bons sentimentos. Tenho mantido total regularidade através dos tempos. No entanto, sou obrigado a admitir,  me defasei. Dias atrás, chegou aos meus ouvidos a seguinte ofensa: “Cada inferno tem o diabo que merece!”
    Essa frase o levou a total desespero, chorou copiosamente. Envergonhado, tentava esconder o rosto.  Cheguei a sentir compaixão. Poderia indicar-lhe certos sujeitos que conheço, fariam o inferno sair do subdesenvolvimento. Porém, fiquei só na intenção. Assim procedendo, o pobre diabo se sentiria ultrapassado, talvez não resistisse a tanta humilhação. Outra coisa, poderia haver um desequilíbrio entre as forças do bem e do mal. Difícil prever no que redundaria a substituição do diabo  por inúmeros terráqueos bem mais  perversos do que o próprio. Cheguei a uma conclusão: pior que um mundo sem diabo, apenas um mundo sem Deus!
 

 

 

 
 
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