UM GENRO NOTA DEZ
 
     
 
     Teodósio era o genro sonhado por toda sogra, educado, solícito, respeitador. Inúmeras vezes, propusera aos amigos a criação do Dia da Sogra, na sua opinião, a segunda mãe de todos os casados. A data, segundo ele, acabaria de vez com a injusta e absurda discriminação sofrida por essas bondosas senhoras. Dona Benvinda simplesmente o adorava.
   Opinião unânime, o homem era boníssimo, incapaz de matar um inseto. Bem! Isso é o que parecia ser. Debaixo daquela cara polida, escondia-se um sujeito matreiro e vingativo. Um pensamento insidioso o acompanhava desde que se casara: eliminar a sogra. Aquele ódio repentino surgira-lhe em meio à viagem de núpcias, abruptamente interrompida por um triste telegrama. Seu sogro morrera fulminado por um enfarte. No mínimo, deveria ter sido provocado pela velha, pensou ele na ocasião.
   Desfizeram passeios agendados, arrumaram as malas, pagaram o hotel e partiram para São Paulo a toda pressa. De outra forma, perderiam o velório e o enterro. Daquele dia em diante, Teodósio jamais se livraria da sombra da mulher. Sua esposa e ela eram unha e carne, como se costuma dizer. Uniam-se todas as vezes em que surgiam discordâncias sobre algum assunto, o ponto de vista de ambas sempre prevalecia. A mulher reinava soberana naquele lar, estava presente em todos os compromissos do casal, impedia-lhes um fugaz momento de privacidade. Os convites da outra filha para passar uns dias em sua casa eram recusados. Dona Benvinda não lhe suportava o marido e não fazia a mínima questão de esconder esse sentimento.
   Com o nascimento do Juquinha, a atuação da velha mais se acentuou. Desde o início, arrogou-se o direito de educar o garoto. Elvécia achava graça, Teodósio remoia-se por dentro. Várias vezes esteve a ponto de explodir, mas a intenção de longa data sublimada, impunha-lhe paciência. Ninguém deveria suspeitar de seus rancores, seria besteira precipitar as coisas. Com o passar do tempo, aquela ideia fixa nutrida por ele foi se exacerbando. Fórmulas criminosas invadiam sua mente angustiada em  longas noites de insônia. Algumas, a seu ver, perfeitamente exequíveis.
   Certa manhã, Teodósio levantou–se mais cedo e dirigiu-se à cozinha. Fez o café, ferveu o leite e preparou a mesa colocando xícaras e talheres em seus devidos lugares. Após despejar um misterioso pó branco na xícara de Dona Benvinda, chamou o pessoal. Sorriu maliciosamente ao receber inúmeros elogios. Preparavam-se todos para sorver a refeição matinal, quando a sogra despejou o conteúdo de sua xícara em um tacho de plástico colocado num dos cantos da cozinha. O genro se desesperou:
 

— O que está fazendo, dona Benvinda?
   — É para alimentar o gato da vizinha. A desalmada viajou e abandonou o pobre bichano passando fome pelas ruas do quarteirão.
   Momentos depois, um gatinho entrava no recinto, bebia o líquido gulosamente e se retirava satisfeito. Para a sorte de Teodósio, não o  viram estrebuchar um pouco distante dali.
   Certo dia, Juquinha chegou da rua chorando. Levara tremendo tombo ao brincar com seu skate. Ao chegar do trabalho, Teodósio foi colocado a par do ocorrido. Tranquilizou-se ao saber que tudo não passara de um susto. No entanto, aquele fato provocou um estalo em sua cabeça. Como não pensara naquilo antes? O skate, um inofensivo brinquedo, poderia se transformar numa arma mortal, proporcionaria um crime perfeito. A velha era uma tranca, não ouvia os conselhos da filha. Descia as escadas para usar o banheiro do piso térreo todas as noites. “Ótimo! Bendita teimosia!” Era só deixar o skate à frente do primeiro degrau, a escada faria o resto. Ninguém desconfiaria.
   Noite do dia seguinte. Um barulho na cozinha fez com que todos se levantassem a um só tempo. Cabia ao homem da casa averiguar, poderia tratar-se de um perigoso assaltante. Teodósio não pensou duas vezes, levantou-se resoluto. Afobado, esqueceu-se do skate. Pisou nele e, tal qual um saco de batatas, rolou escada abaixo. Teve morte instantânea ao bater a cabeça no piso inferior. Tremenda fatalidade, comentavam seus parentes e amigos. No velório, em ambiente de total desolação, lançando rápido olhar para o outro genro, dona Benvinda não se conteve:
   — Os bons, Deus os leva mais cedo, os malandros e os maus elementos ficam aqui para azucrinar a vida da gente.

 
 
 
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